Sexo na Cabeça

Faz um tempinho que eu não posto nada, pas problème. Estava esperando terminar a leitura do livro “Deus quer que você enriqueça” porque meu interesse mesmo era escrever um post sobre aPorbrezaRecursos É um assunto elaborado, que eu tenho algumas informações, mas não as que eu queria, ainda! Portanto, geladeira pra ele por enquanto.

Aprendi mexer numas tranqueiras mais do blog e coloquei um módulo que a pessoa se inscreve pra receber os posts por e-mail. A expectativa é que ao final desse mês chegue a 1500 visitas. Ó!

No meio do furdúncio fui à biblioteca perto da minha casa (como já não bastassem as dezenas de livro que tem pra ler aqui) fui fuçar nas novelas e ficções em francês e encontrei esse em português: “Sexo na cabeça”. Não tem muito a ver com meu site, mas tem um pouco a ver comigo, algumas de minhas histórias. E vale a pena, resolvi dividir o Veríssimo:

Nádegas Redolentes

Ela era irresistível quando acordava. Tinha até um cheiro diferente, que desaparecia no resto do dia. Com um inexplicável toque de baunilha. Mas ela acordava de mau humor. Quente, cheirosa, apetitosa e emburrada. Nem deixava ele beijá-la na boca. «Eu ainda não escovei os dentes!» E se ele tentasse beijar o seu umbigo (noz-moscada, possivelmente canela), ela lhe dava um chute.

Não era só os cheiros. Ela acordava fisicamente diferente. A cara maravilhosamente inchada, a boca intumescida, como a de certas meninas do Renoir. No resto do dia ia alongando-se, modiglanizando-se, mas de manhã era uma camponesa compacta, com fantásticas olheiras roxas. Ele não sabia explicar. Ela era uma mulher delgada, de pernas compridas, mas de manhã tinha as pernas grossas. E, ou ele muito se enganava, ou até a bunda ela perdia, de dia. A bunda. As nádegas redolentes. «Mmmmm… Ervas aromáticas. Um quê de sândalo…»

– Pá-ra!

De noite, ela insistia e o emburrado era ele. Ela tomava banho, botava uma camisola transparente e deitava ao lado dele, toda certinha, penteado perfeito. Ele não podia dizer que gostava mesmo era quando ela acordava com a camisola toda torta, com uma alça enroscada nas pernas, nas doces pernocas matinais. Ele ficava lendo, ela ficava esperando. Cheirando a sabonete e esperando. Tentava começar uma brincadeira cutucando-o com o pé- Cantarola no seu ouvido – «Ele já não gosta mais de mim, que pena, que pe-e-na…» Ele continuava lendo até que ela desistisse e dormisse. Ele não queria nada com aquela pessoa que virava as pestanas antes de ir para a cama. Queria era a camponesa da manhã. Sonhava com a sua camponesa irritada.

A tese dela era que, antes de escovar os dentes e tomar café, uma pessoa não é uma pessoa, é uma coisa. Pode evoluir para uma pessoa se fizer um esforço, mas é um processo lento e difícil, que requer concentração, e exclui qualquer forma de digressão, ainda mais sexual. Comparava o sono a um acidente ao qual a gente sobrevive, mas leva meio dia para se recuperar. E o desejo dele de possuí-la antes de escovar os dentes a uma tara indefensável, quase a uma forma de necrofilia. «Sai, sai!» e levantava-se, tentando encontrar as pontas da camisola, puxando a alça do meio das pernas com fúria. Quando chegava à porta do banheiro já era uma mulher comprida. E ele ficava cheirando o travesseiro ainda quente. Mmmm. Baunilha, decididamente baunilha.

Uma noite, ela disse:

– Eu acho que você tem outra. Acho que você está pensando nela neste momento. Fingindo que lê e pensando nela. Diz que não!

Ele não disse que não. Estava pensando nela, de manhã. A sua outra, a sua inatingível outra, a das pernocas, a da baunilha. Mas ela não precisava se preocupar, pensou. Nunca seria enganada. A outra não queria nada com ele.

– Apaga a luz, apaga.

Ele suspirou, fechou o livro, apagou a luz. Enquanto faziam amor , ele tentava imaginar que ela era a outra. Mas o cheiro de sabonete atrapalhava.

[O genial Luiz Fernando Veríssimo é gaúcho de Porto Alegre, nasceu em 1936. Viveu nos estates com seu pai Érico Veríssimo, quando era pivete. Pra quem não sabe, o pai dele escreveu o livro “Olhai os lírios do campo”. Uma bela história sobre capitalismo.]

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