É praxe na minha vida as pessoas me dizerem que gostariam de ter as coisas tão claras como eu as tenho. Mas a grande verdade é que eu também tenho muitas e muitas dúvidas, muitas inseguranças e medos. Talvez até mais que a média. Mas há uma coisa comigo, a intuição. Dela as respostas vêm de dentro ou do que aprendo pela vida.

Quem me conhece sabe que não sou nada fã do Paulo Coelho, mas o livro “O Alquimista” fala, de maneira prática, como funciona “ouvir o coração”. Ele chama de “exercer a Lenda Pessoal”, o que muita gente entende por destino, mas na verdade é o aprendizado que cada um necessita, que pode vir de várias formas, com diferentes graus de dificuldade cada um tem a sua maneira de buscar paz interior.

No livro, durante o caminho o rapaz encontra a mulher da vida dele, mas a sua realização estava em chegar ao Egito quando o Alquimista lhe diz: você pode deixar de ir até as pirâmides para ficar com a moça do deserto. Passarão anos de felicidade e entusiasmo e então o tempo fará suscitar dentro de você a necessidade, curiosidade e a sensação de que você ainda deve ir até lá. Onde no caso, ele apenas retardaria a execução da sua verdadeira inquietude para ficar com algo importante, mas que não supriria o vazio dentro dele e, ainda assim, quanto mais velho ele ficasse, mais difícil seria o transcurso desse caminho.

Simplifiquemos isso como: escolher o caminho do amor, ou caminho da dor.

Na vida acontece o mesmo, muitas vezes já temos todas as respostas que precisamos, mas muitas vezes nos negamos a aceitá-las; o que é bem diferente de não tê-las. Quer acreditemos quer não, a evolução é obrigatória e imparável, mas o discernimento é nato em todos os seres humanos. Até o mais ignorante, sente o que lhe faz bem e o que não.

Lembro-me da história de um amigo que pedia à todo mundo que o ajudassem a encontrar um emprego e muitos se mobilizavam a ajudá-lo mas, até no mais favorável dos cenários nada dava certo. Vendo a tristeza dele e a mentira que se vendia lhe disse: “você diz que quer arranjar um emprego, mas é que você parece tão à vontade parado… sinto que cada vez que alguém diz que você tem que fazer uma tarefa mais chata, você torce o nariz… daí fica complicado, né!? Porque afinal é você mostrando pro entrevistador que está tão bem parado.”

É óbvio que depende do mercado, da vaga, das competências da pessoa, mas quando alguém te dá a oportunidade e você tem as competências, ainda existe o fator “será que eu quero mesmo?”. Afinal, já imaginou se der certo!? Vou ter que me esforçar e pior que medo de dar errado, é o medo de dar certo.

O mesmo acontece quando alguém diz que não te quer e você insiste irracionalmente. E sofre. Por isso, uma coisa é dizer “não sei o que está acontecendo”, outra bem diferente é, “não quero aceitar o que está acontecendo”. E posso estender a outros muitos casos: gostar de alguém que não gosta de você, querer mudar a essência dos outros para não ter que desfazer-se de amizades, aceitar que tem dificuldades de se relacionar, aceitar que tem dificuldades de perdoar, ou de esquecer coisas do passado, aceitar que não tem amigos por uma maneira de agir, aceitar que certas atitudes afastam as pessoas que querem nos ajudar, etc etc etc. “Ouvir o coração” é também compreender-se, olhar pra dentro e reconhecer o que é que realmente nos faz feliz na essência. Dizer, eu sei que não estou afim de trabalhar, mas eu preciso e fará muito bem pra mim pois permite que eu me realize. Dizer eu estou cansado de mentir pra mim, e se eu me aceitar como sou ajuda muito a saber que tomar.

Para aquele amigo que dizia querer, mas não agia como quem quisesse mudar, eu sugeri que fizesse uma coisa quando ele chegasse em casa. Logo depois que fizesse as tarefas do seu dia, e não fosse mais sair de casa, fizesse um pequeno teste:

– Olhe-se no espelho e diga “eu quero trabalhar”. Olhe pro seu rosto por um tempo e veja se você consegue convencer a si mesmo.

Mesmo que ele tentasse encenar, veria que com o passar dos minutos, não conseguiria suportar aquela pose astuta. Até porque seria ele mesmo escondendo-se as coisas e quando a sua real sensação interior viesse pra fora ai saberia o que é que as pessoas viam nele que lhe impedia que tudo desse certo. Era aquela pequena levantada de sombrancelha, era aquela pequena torcida de lábio, era aquela desculpinha que mostrava a falta de interesse, a falta de ânimo, a incongruência entre vocalizar e realizar.

Com relações é o mesmo, não!? Olhe-se no espelho e diga: poxa, mas toda vez sou eu quem chama a pessoa pra sair, toda vez ela me dá mil desculpas, toda vez há algum problema, toda vez eu tenho de convencê-la, será mesmo que ela quer andar comigo? Ou então, a pessoa evade toda vez e você… “imagina, tá tudo bem!”. Chega ao fim do dia e você tem a sensação de que não está feliz. Ora… ora… por que será?

Será que você não tem a resposta, ou será que não quer aceitá-la?

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